Crônicas de uma fechadura emperrada

Quem pode dizer

Se ao entrar no quintal da vizinhança

Se está a enclausurar no vitral da lembrança

Ou a se libertar no portal da esperança?

 

Só quem entra

E volta para contar.

Só quem é barrado

E se atém ao leite derramado.

 

Quantas histórias diferentes

Cada um deles irá guardar…

E mesmo assim o ponto mais destoante

Não deixa de ser a força ao tentar entrar.

 

Mesmo assim, quem voltou de lá diz

Que não havia muito com que se empolgar.

Quase nada mais se percebe que o próprio lugar

E a ausência dos que assinalaram esse dia a giz.

 

Será que vale a pena?

Será que vale a consideração?

 

Quão precipitada essa ideia agora parece:

O “quase” afirma que ainda conteúdo havia

E ainda quando de números se carece

É justo o conteúdo que obtém a primazia.

 

Quando a semente solo fértil encontra,

O broto pode germinar com vigor.

Não importa o tamanho da terra que se mostra,

Mais vale a vida que ali nasce com fervor.

 

Aos que entraram cresceu o broto,

Fruto do futuro promissor.

Aos que ficaram padeceu o desgosto,

Cúmulo de um aziago amargor.

 

Mas a estes últimos eu digo em clamor:

 

O fim só vai ser alcançado

Por aquele que mais perto o adiantar.

A oportunidade pode estar bem ao lado

Quando se faz mais força para tentar entrar.

 

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Herói da nossa gente

Do fundo do mato-virgem ele saiu

E a primeira infância passou calado e arredio.

É assim que o Mário ao mundo a história abre

E nem me pergunte qual, pois no fundo você sabe.

 

Meu santo, que criança feia!

Nesse ritmo não passa nunca de aldeia!

 

Realmente, o destino lhe impunha considerável barreira,

Porém maior é a conquista frente à notória adversidade:

É assim que a cidade cede o seu manto aos bandeiras

Para lançar-se terra adentro em busca da prosperidade.

 

Olha lá, São Paulo parece ser seu nome.

Mas só na base da extração não pode ir tão longe…

 

Uma revolução interna ainda era precisa para crescer,

Uma expressão verdadeira de seu próprio símbolo de autoafirmação.

É assim que o vermelho, branco e negro fazem um povo nascer

Selando muito antes sua flâmula com a ousadia para conduzir como vocação.

 

Dá uma conferida agora, o paulista pensa que está arrasando.

Vai ter que voar muito mais alto para continuar planando…

 

Mas a sua corpulência já estava seguramente moldada

E prometia se irradiar por terrenos ainda mais profundos:

É assim que o café a alimenta para se tornar locomotiva desgarrada

E os imigrantes lhe completam a tendência de acolhedora morada do mundo.

 

Dá uma conferida agora, é uma verdadeira máquina urbana!

A capital da tecnologia antropofágica profana!

 

Mas São Paulo soube utilizar o seu poder fabril,

Trazendo ganhos nunca antes vistos na cidade e no Brasil.

É assim que, mesmo trabalhando firme, não abandonamos o simples gesto

De pegar o trem das onze para ir ao samba na saudosa maloca do Arnesto.

 

Olha lá, São Paulo virou um fervente caldeirão!

Com toda a sua força é bom não estar perto durante a erupção…

 

A audácia e o arrojo da semana de 22 seu ideal libertário plantou

E do Obelisco à Praça da Sé o seu sentimento vanguardista se aflorou.

É assim que São Paulo como a terra das oportunidades realmente se firmou,

Fazendo-se o mais puro termômetro nacional que já se fabricou.

 

Meu mano, São Paulo tá ficando legal!

Um centro polivalente de alcance universal!

 

Única em toda a sua multiplicidade

Plural em toda a sua singularidade.

É assim que São Paulo segue mostrando a sua imperfeita perfeição

Nunca deixando de guardar a Paulista nas veias e a Mooca no coração.

 

Foi mal, eu poderia falar ainda muito mais,

Mas tenho que correr para pegar metrô e busão.

Pô, eu sou filho único e já tá tarde demais.

Tenho que dar uma olhada em casa então tem mais não.

Um soldado desconhecido

Identidade ele tinha,
De vontade própria a recusou.
Com um nome ele vinha,
Só fez o registro e o rasgou.

O registro do nome
Ou o nome do registro?

Porém,
A espera de uma chance.
A espreita de um relance.

Mas ainda sem enlaces,
Sem base e sem crase.

Era o cavaleiro sem nome a avançar.

Carrega sua face lisa e rotunda
Que só brande a espada na penumbra.
Um soldado desconhecido sem tumba.

O ideal de mais além
Junto à fama que não vem.
Sem loas, sem broas.
Mas não à toa.

Pois segue com proa,
Com vista, conquista.

Vai, cavaleiro,
Procura o celeste cruzeiro
E persiste em fazer o mundo menos corriqueiro.

Análise: O fim da eternidade – Isaac Asimov

Fim da eternidade
Gosta de muitas surpresas mescladas com cenas futurísticas de viagens no tempo e mudanças de realidade? Então, “O fim da eternidade” talvez seja uma boa história para se envolver em tempo e espaço.
A carga de ficção é bem forte do começo ao fim, já que o próprio período da narrativa não é claro: você só sabe que está em uma organização chamada “Eternidade”, que tem a capacidade de mandar os seus representantes (os eternos) para um determinado século de acordo com a sua necessidade. Isso para garantir a felicidade permanente da humanidade por meio de pequenas modificações que seriam capazes de evitar guerras, catástrofes, etc. Nesse momento é que surgem algumas questões levantadas por Asimov: o que é felicidade? Ela pode ser diferente de pessoa para pessoa, de época para época? Evitando momentos ruins as pessoas ficariam realmente mais felizes ou tudo seria somente mais uma forma de dominação velada da vida alheia?
Nesse instante, opiniões opostas são colocadas sob análise: a conservadora do técnico Harlan e a liberal da sempre misteriosa Noÿs Lambent.
Para ele, que sempre foi um dos eternos mais dedicados e eficientes no serviço, a Eternidade assegura a sobrevida da humanidade ao realizar micromudanças praticamente imperceptíveis, mas que passassem a incentivar o estudo da engenharia temporal em lugar do uso da energia nuclear, propiciando assim o desenvolvimento de viagens intertemporais em vez de guerras nucleares que criariam um ambiente terrestre nada agradável.
Parece realmente um cenário muito tranquilo e sereno, ideal para se viver com alta qualidade de vida. Até que Noÿs Lambent resolva jogar todo esse contexto bucólico por terra: essa vida “bonitinha”, “perfeitinha” não seria a melhor para o ser humano.
Em suas próprias palavras, “ao eliminar os desastres da Realidade, a Eternidade exclui também os triunfos. É enfrentando grandes dificuldades que a humanidade consegue alcançar com mais êxito os grandes objetivos. É do perigo e da insegurança que surge a força que impulsiona a humanidade para novas e grandiosas conquistas”.
O homem só continuaria evoluindo se fosse capaz de superar as adversidades pelas quais passasse. Sem inovar, sem se reinventar progressivamente, a vida, em algum instante, acabaria ficando sem graça. Como que sem identidade própria, a falta de novos objetivos e conquistas, isso sim, seria o responsável pela extinção de uma humanidade na verdade triste por não poder realizar-se.
E, apesar de algumas outras contestações, o pensamento da mulher não deixa de ter uma grande utilidade: afinal, todos gostaríamos de viver em um mundo sem problemas, preocupações. Mas será que seria realmente melhor ou sempre sentiríamos falta daquela pimentinha que não nos deixa ficar parados? É o que vai caber a cada leitor decidir…

Análise: O labirinto do fauno

laberinto-del-fauno Esse filme é um daqueles que te faz sair da zona de conforto. Logo que acabou não consegui falar nada por alguns instantes devido a essa trama perturbadora e que realmente vale a pena de ser conferida.
À primeira vista, “O labirinto do fauno” parece um filme infantil, com uma garotinha como protagonista que vive no mundo dos contos de fadas inventado por ela mesma. É, só parece.
A história se passa em 1944 na Espanha, época da ditadura de Franco e dos atos finais da segunda guerra mundial, onde torturas e execuções sumárias são praticamente parte da vida cotidiana. Neste cenário está imersa Ofélia, a menina que amava os livros de contos de fadas e que vê sua mãe em estado debilitado devido a sua nova gravidez. E, para piorar, a genitora começa um relacionamento com o Capitão Vidal, representante puro da autoridade fascista vigente que comanda os seus combatentes sem dó nem piedade contra os oposicionistas do governo, alguns poucos rebeldes que ainda se espalhavam pelas montanhas.
Era uma realidade dura. Não havia espaço para crenças: o patriarcalismo era notório, a razão imperava, analogia feita pelo relógio do qual Vidal não se separa em nenhum instante.
E Ofélia é a única que não aceita toda essa árdua condição: sua mente criativa está sempre gerando formas para alegrar de alguma forma aquele ambiente sombrio. Mas pensar diferente naturalmente leva a atritos, o que fazia com que a garota sofresse constantes advertências para que fincasse os pés naquele chão duro e estéril.
Mas ela não podia: exatamente como Dom Quixote tornava reais os romances de cavalaria, Ofélia irá viver seu próprio conto de fadas. Porém, conhecendo somente as agruras da vida, suas fantasias não seriam mais do que projeções da sua vida real, criando assim, em vez de príncipes encantados em castelos exuberantes, somente monstros que a colocavam em risco a todo instante.
Mas tudo tem um começo. E esse começo é o labirinto. A inifinidade de caminhos para chegar a uma só saída, o cérebro em busca da sua missão. É nessa situação que a menina encontra o fauno.
Conhecido como o protetor das florestas, o fauno é uma espécie de bode que pode andar sobre os dois pés assim como os humanos. As semelhanças com as mais comuns descrições ocidentais para o diabo certamente não são casuais mesmo tratando-se de um ser concebido ainda pelos gregos antigos. E então, acreditar nele ou não?
Pois o fauno lhe vem com uma proposta tentadora: diz que Ofélia havia sido a rainha do mundo subterrâneo e que deve completar 3 tarefas para que possa retomar o seu reinado.
Na primeira deve acabar com uma espécie de parasita que está sugando as forças da árvore-mãe, colocada como uma figueira. Isso elucida a valorização do matriarcalismo em uma sociedade dominada pela brutalidade masculina. Confesso que no começo não percebi, mas é clara a relação entre Capitão Vidal e Cronos, deus do tempo. O capitão nunca abandonava seu relógio de bolso e sempre faz de tudo para demonstrar e preservar o seu poder de comando, assim como Cronos, que passa a devorar os próprios filhos a partir do momento em que descobre que será destronado por um deles. No final, ambos também encaram os seus inevitáveis destinos.
A segunda tarefa de Ofélia é a mais conhecida por causa da sua maior tenebrosidade: a menina tem de recuperar um punhal de uma criatura sem olhos, o homem pálido.
No entanto, apesar de se exibirem imagens de que esse monstro costumava devorar as crianças que o visitassem, ele não seria capaz de mover um músculo caso Ofélia não comesse nada de seu rico banquete. Esta tarefa demonstraria o desapego às coisas materiais. Tanto que a sala e os alimentos possuem sempre um tom avermelhado para estimular as reações mais impulsivas e até os olhos do homem pálido (sim, na verdade ele tinha olhos, mas os colocava nas palmas das mãos) são também mostrados em uma bandeja. O pensamento racional, econômico, que só é capaz de ver um mundo concreto e frio.
Ao contrário de Ofélia, que à altura da terceira tarefa, tem algo como uma transcendência pelo próprio sacrifício. Seus olhos veem além da realidade, assim como os poucos rebeldes das montanhas que acreditam poder vencer toda a hegemonia franquista e efetivamente conseguem tomar a base de Vidal (em uma operação um tanto forçada, no entanto, com os revoltosos parecendo possuírem muito mais munição e pessoal do que uma base governista que teria acesso bem mais fácil a ambos).
Nesse momento é que se desenrolam dois possíveis finais: com a morte da garota, ela poderia descobrir que, por todo o tempo, o fauno esteve a testá-la e a aprovou, finalmente assumindo o trono ao lado da mãe e de seu possível pai. Ou senão, na verdade, toda a história teria sido pura invenção de uma fértil mente infatil e toda a sua luta teria sido em vão.
Por isso, muita gente pode achar o filme um tanto triste pelo sofrimento e conclusão dúbia para a vida de Ofélia. Mas eu não achei. Assim como o diretor estimula a redenção do ditador frente à iniciativa republicana, Ofélia não tem um final tão ruim assim. Claro que a morte de uma criança nunca é louvável, porém, pela narrativa, é possível perceber que fosse apenas questão de tempo para Vidal realmente perder a paciência com ela. Mas mesmo que tenha sido verdade ou mentira a sua trama, Ofélia ainda foi capaz de morrer feliz. Pois, na cabeça dela, a garota cumpriu efetivamente a sua missão e agora poderia colher os frutos das suas escolhas. Foi a conclusão que Dom Quixote faria de tudo para conseguir: morrer ainda que vivendo seu sonho.

Imagem: http://magiaeimagem.wordpress.com/2009/07/27/o-labirinto-do-fauno/

Memórias de um velho ano novo

Desejo que o gigante ganhe consciência,
Quero que isto não seja só aparência.
Espero que não hajam mais deslizes,
Tenho vontade de que o presente aconteça,
Que o futuro finalmente se realize.

Que o futebol seja só esportivo,
Tenho vontade de que o professor seja reconhecido.
Espero que o político honre o seu cargo,
Quero que use bem nosso dinheiro,
Desejo que ao menos aja antes de desviá-lo.

Quantos desejos,
Quantas realidades.
Quem lembra?

O planeta das metáforas

Viver sonhando,
Sonhar acordado.
Viver acompanhando
O galgar do cavalo alado.

Força natural
Extrapoladora do real.
Ou melhor,
Valorização dos seres
às últimas consequências.

A mente caricaturista
Do que pode enxergar.
Visão vanguardista
Do que se pode imaginar.

Onde os heróis brilham
E os monstros arrepiam.
Uns por lutarem com gloriosa lealdade.
E os outros por mostrarem a dolorosa verdade.

Quem pode realmente saber
Se é canto ou encanto?
Depende dos olhos de quem vê.

Esse é o planeta das metáforas.

Onde o fantástico
Sempre tem seu lado sensato,
Onde o mais lunático
É o sábio principal do povoado.

Quando o mundo ideal
Não é nada diferente do mundo real.
E as inocentes fábulas infantis
Saem da terra do nunca
Para fundamentar estratégias mercantis.

Pois Esopo, Jobs e outros loucos de plantão
Não deixaram de viver no mesmo planeta:
O mundo da inovação.